quarta-feira, 29 de novembro de 2017

a voz das mulheres



Você já ouviu falar em Safo? Não, né? Até pouco tempo, nem eu.




Safo foi uma filósofa da Grécia antiga, tão popular a seu tempo quanto Platão e Aristóteles, mas que, por ser mulher, teve sua voz silenciada pelo poder que sempre imperou na ordem discursiva ao longo da história: a voz do homem.



Assim como Safo, muitas outras mulheres foram (e continuam sendo) silenciadas pelos homens na história da humanidade. A voz do poder e da razão, da verdade e da justiça, sempre foi “masculina” e, por isso, fomos todas e todos acostumados a ouvir essa única voz "superior", desprezando as vozes não dotadas da mesma credibilidade.



E mesmo com o avanço do feminismo nos dias de hoje, ainda é muito comum que a voz do macho seja A palavra, a última palavra, a palavra certa, incontestável e aplaudida. Se olharmos para os debates acadêmicos em quase todas as áreas do conhecimento, ouviremos vozes predominantemente masculinas; se olharmos para os cargos de direção das grandes empresas, idem; para os meios de comunicação, para todas as religiões e para as mesas de bar, de novo, as vozes masculinas. 



E, como se não bastasse, ouviremos vozes femininas apoiando e aplaudindo esses vozes masculinas, ainda quando machistas, opressoras e violentas, ainda que desqualifiquem o trabalho da mulher, limitem a mulher à função da maternidade ou que sujem a imagem de uma mulher que não lhes serve mais. Em outras palavras, homem fala (muito) mal de mulher e ainda recebe de brinde aplausos e apoio de outras mulheres. 



Então, assim, se você é mulher (e, portanto, está inserida na metade historicamente silenciada da sociedade), reflita e pense duas vezes antes de privilegiar a voz do homem em detrimento das mulheres. Precisamos de que nossa voz seja ouvida por todas e todos, mas precisamos também de que você, mulher, compreenda essa opressão histórica e se coloque do nosso lado.




Mais sororidade/dororidade, por favor!


quarta-feira, 29 de março de 2017

teoria crítica e direitos humanos III


já falei aqui sobre a teoria crítica dos direitos humanos em duas postagens: I e II. mas, recentemente, me perguntaram a diferença da teoria crítica para a teoria tradicional e resolvi compartilhar com vocês um texto bem didático sobre essa diferença. é um ensaio de autoria da Vanessa Berner, minha orientadora, e da Raphaela Lopes, que também foi "desorientada" (como Vanessa chama todas suas orientandas) e hoje advoga na Justiça Global, atuando no Sistema Interamericano de Direitos Humanos.

o texto Direitos Humanos: o embate entre teoria tradicional e teoria críticapode ser encontrado nesse link abaixo: 
https://www.academia.edu/11339924/Direitos_Humanos_o_embate_entre_teoria_tradicional_e_teoria_cr%C3%ADtica

é muito importante compreendermos essa diferença porque a teoria crítica tem um outro paradigma epistemológico e nos faz olhar para o Direito com outra lente. enquanto a teoria tradicional busca respostas para os conflitos sociais apenas dentro do próprio Direito, a teoria crítica vai além; enquanto a teoria tradicional tem uma matriz liberal-individualista e prega a objetividade e a neutralidade, a partir de uma visão cientifica do Direito, a teoria crítica é capaz de perceber que o Direito não é neutro e, no capitalismo, serve de instrumento de dominação a serviço das classes dominantes. se a teoria tradicional tem por objeto o abstrato, a teoria crítica interliga teoria e prática e busca compreender e transformar a realidade concreta. então, sim, precisamos saber a diferença e buscar olhar o Direito com os olhos da teoria crítica, se quisermos uma opção emancipatória capaz de mudar a realidade em alguma medida.

"Os direitos humanos podem se converter em uma pauta jurídica, ética e social que sirva de guia para a construção dessa nova racionalidade. Mas, para tanto, devemos libertá-los da jaula de ferro na qual foram encerrados pela ideologia de mercado e sua legitimação formalista e abstrata". Herrera Flores, em A reinvenção dos Direitos Humanos.

Rio de Janeiro, 29 de março de 2017

Roberta Laena

quinta-feira, 23 de março de 2017

entendendo as relações coloniais...


cada vez mais, precisamos compreender as relações coloniais que ainda existem no mundo. a "independência" dos países não acabou com as relações de hierarquia e dominação entre os Estados e a linha que divide o mundo entre centro e periferia, a que Boaventura chama de linha abissal, é mais forte do que imaginamos. por isso, a crítica descolonial é urgente e necessária. 

o livro "O que o Tio Sam realmente quer" (download no link), de Noam Chomsky, é um bom caminho pra começarmos a entender a relação dos Estados Unidos com alguns países. é assustador, sim, mas precisamos encarar essa realidade. longe dos panfletos a la "teoria da conspiração", a obra traz fatos concretos com base em relatórios americanos. 

vale a leitura!


Rio de Janeiro, 23 de março de 2017

Roberta Laena

segunda-feira, 13 de março de 2017

Teoria Crítica, Descolonialidade e Direitos Humanos


depois da pausa, o retorno!

finalmente iniciando a segunda etapa do doutorado aqui na UFRJ, compartilho com vocês um livro que organizei no ano passado, em conjunto com a Profa. Vanessa Berner e a doutoranda Heloisa Melino de Moraes. a coletânea é resultado das pesquisas do Grupo Teoria Críticas de Direitos Humanos, do Laboratório de Direitos Humanos da UFRJ. nele, temos um artigo sobre o colonialismo e a violência no Complexo da Maré, resultado das primeiras observações do projeto de extensão "A arte e a luta por direitos humanos no Complexo da Maré".




download no site do LADIH:


Rio de Janeiro, 13 de março de 2017

Roberta Laena

p.s. semanalmente, tentarei socializar textos e ideias e projetos e experiências e tudo mais que aparecer de interessante por aqui. 

sexta-feira, 24 de junho de 2016

precisamos (gênero e feminismo)

precisamos estudar feminismo e suas diversas correntes. 

precisamos saber o que é gênero, identidade de gênero, discriminação de gênero e violência de gênero. sim, são coisas diferentes.

precisamos saber sobre cultura de estupro. sim, ela EXISTE!

precisamos saber sobre prostituição, turismo sexual, tráfico de mulheres.

precisamos saber sobre violência: causas, efeitos, ciclos, dados, prevenção.

precisamos enfrentar todos esses temas e dialogar por aí, na aula, nos corredores, na mesa de bar, na mesa de jantar, nas redes sociais.

precisamos de educação de gênero.

sempre, e cada vez mais.

dois textos básicos sobre tudo isso, de Adriana Piscitelli:

1 - Re-criando a (categoria) mulher?, 

2 - Brasileiras na indústria transnacional do sexo
https://nuevomundo.revues.org/3744?lang=pt

vamos?





Rio de Janeiro, 24 de junho de 2016.

Roberta Laena

p.s.1 parabéns ao CAJUP e ao Severinas pelo evento sobre o tema! arrasaram!

p.s.2 estou estudando todos esses temas no Transgride, grupo de pesquisa em direitos humanos e feminismo, do Laboratório de Direitos Humanos da UFRJ. 

sexta-feira, 10 de junho de 2016

a invenção dos direitos humanos


no ano passado, o CAJUP Sitiá de Quixadá organizou um evento sobre direitos humanos e o palestrante, nosso querido Renato Roseno, mencionou um livro que aborda a história dos direitos humanos. lembram, cajupianos e cajupianas? 

pois aqui me deparei com ele nas indicações de leitura dos professores. o livro é da Lynn Hunt,  sob o título A invenção dos Direitos Humanos. 

a abordagem é muito interessante porque mostra o desenvolvimento histórico dos direitos humanos e analisa a influência das pessoas, do indivíduo, na transformação do pensamento da época. a autora mostra, por exemplo, como a leitura de romances fez com que a sociedade desenvolvesse a empatia - o colocar-se no lugar do outro - e como esse fato está relacionado à aceitação dos direitos humanos.

"Para que os direitos humanos se tornassem autoevidentes, as pessoas comuns precisaram ter novas compreensões que nasceram de novos tipos de sentimento". 

além de nos brindar com muito conhecimento histórico - é sempre muito importante a compreensão histórica das coisas, a obra é de fácil leitura e prende nossa atenção. 

recomendo muito a leitura!


Rio de Janeiro, 10 de junho de 2016.

Roberta Laena

sexta-feira, 3 de junho de 2016

o direito como instrumento de transformação social e o papel da extensão nas universidades


desde a graduação, tive a sorte de encontrar pessoas que me mostraram a importância de relacionar o ensino com a prática social, por meio da extensão.

na graduação em direito, na UNIFOR, Profa. Manuela Torquato foi uma incentivadora na criação do SAJU-CE, coletivo de assessoria jurídica popular universitária do qual participei desde a fundação. ser uma sajuana foi um marco que mudou totalmente minha perspectiva sobre o direito, influenciando na vontade de se professora e de multiplicar essa experiência.

desde então, continuei realizando e incentivando a prática de pesquisas empíricas, que, para além das teorias jurídicas, tentaram entender a realidade e influenciar na vida das pessoas de alguma forma. mas somente em 2015, por meio do CAJUP Sitiá, em Quixadá, consegui voltar a fazer extensão pra valer, e a cada dia tenho mais certeza de que esse é o caminho para que possamos ver o direito realizando uma verdadeira transformação social.

nesta semana aqui no Rio, dois momentos foram fundamentais para que essa confiança na extensão ganhasse novo ânimo: na marcha feminista "Por todas elas", contra a cultura do estupro, ocorrida no centro do Rio, no 1 de junho, e no projeto de extensão "A arte e a luta por direitos humanos no complexo da Maré", coordenado pela Profa. Vanessa Berner, do Laboratório de Direitos Humanos da FND. dois momentos diferentes mas igualmente importantes para perceber o direito como processo de luta e empoderamento, como meio de minimização de tantas desigualdades e injustiças que marcam nossa sociedade. 

o ensino jurídico formal da sala de aula não dá conta da realidade - muitas vezes, até a despreza. as pesquisas jurídicas também pouco vão a campo, ficando, em regra, no âmbito teórico. por isso, precisamos ir além e a extensão é o caminho. não uma extensão faz-de-conta que promove cursos pagos e caros dentro de quatro paredes, mas uma extensão real, nas ruas, nas comunidades, com pessoas e seus problemas reais. uma extensão verdadeiramente preocupada em encontrar caminhos para nossa sobrevivência nesse mundo de complexidades.

em tempos nos quais precisamos gritar o óbvio, como "não é não", dizer que a extensão tem esse papel fundamental não é tão banal, como eu queria que fosse. em tempos sombrios de retrocesso e avanço do conservadorismo, reafirmar esse instrumento de transformação é necessário e urgente.

para quem nunca experimentou, fica a dica. para os que já começaram, não desistam. a luta é árdua, mas importante. e está só começando.

no blog http://assessoriajuridicapopular.blogspot.com.br/, informações sobre AJUPs de todo o país.

aqui no Rio, http://www.ladih.org/ e http://najupluizamahin.blogspot.com.br/

em Quixadá, CAJUP Sitiá: www.facebook.com/AJUPFCRS



Rio de Janeiro, 3 de junho de 2016

Roberta Laena